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Segurança Social.

por Fernando Lopes, 27 Fev 16

O vizinho da frente da minha aldeia é um homem pequenino, muito sujo, sempre com uma daquelas boinas antigas com um pico espetado no centro. A casa, degradada, está entre um caminho de pedras grandes e irregulares, da largura de um carro, à esquerda. Do lado direito outro pequeno trilho, ainda mais estreito e estranhamente asfaltado, como se num afã de modernização alguém começasse a colocá-lo onde é inútil.

 

Na frente da velha casa cirandam galinhas e patos num aparente abandono. Nos dias de sol pode ver-se a mulher, paralítica e demente, sentada numa cadeira de rodas a gritar ou murmurar angústia e medos imperceptíveis.

 

Quando passo por ele e lhe dou os bons-dias o cumprimento é sempre precedido de uma passar da mão pela camisola, como que a limpá-la para apertar a do ilustre vizinho ocasional. Não mais trocamos que amenidades, uma ou outra palavra sobre o tempo, a falta de melhoras da sua senhora.

 

Toda aquela miséria, abandono, o desprezo dos vizinhos, fizeram-me perguntar sobre a sua subsistência. O normal por aquelas bandas, uma leira de terra aqui e ali, uma corte e um porco que lhe asseguram alguma carne. E a Segurança Social. Vai uma carinha e duas mulheres, algumas vezes por semana, levar refeições quentes, higiene à mulher, uma ou outra varridela no casebre. Sem este apoio provavelmente não conseguiriam sobreviver, já que é apenas de sobrevivência que se trata.

 

Por estas e outras me contorço todo quando oiço os liberais de pacotilha debitarem doutos pareceres sobre o excesso de despesa da segurança social.

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2 comentários

De golimix a 05.03.2016 às 10:30

Fernando costumo dizer, e isto a par das visitas domiciliarias que fazia por aqui, neste Trás-os-Montes (de pessoas tristes e que votam sempre nos mesmos), que se passa mais frio aqui do quem em países onde existem temperaturas negativas abaixo de 20, 30 e até 40ºC! Cheguei a ter mais frio dentro das casas do que fora delas! Agora imagina a dor de alma que é, destapar alguém, sossegado no seu leito, para lhe curar as muitas chagas que o acometem! Há muita miséria por este país! Aqui, neste norte perdido, parece que está meia esquecida. Felizmente vai existindo os cuidados continuados e os paliativos. Mas há limite de camas e um critério a cumprir.

A comida que lhes chega e a ajuda, fornecida pela S.S., é uma estrela pequenina que ilumina no meio da miséria. Mas, mesmo assim, ouço muitas vezes dizer que agora ninguém passa fome e não há miséria! Há tantos tipos de miseráveis.....

De Fernando Lopes a 05.03.2016 às 10:52

Sei bem que até por questões profissionais tens uma noção ampliada da pequena realidade que descrevo. A fome, como a minha avó a descreveu nos anos 20 e 30 do século passado talvez não exista, mas há muitas variantes de miséria. No Minho do meu coração, aqui no Porto, também me deparo com muito casos de abandono. E não há nada pior que essa forma de não-existência.

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