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Pruridos linguísticos.

por Fernando Lopes, 4 Jan 17

No tempo em que os animais falavam não existia a linguagem formatada, igualzinha, inócua. Habituei-me a tratar um preto por preto, maluco por atolambado, portador de síndrome de Down por mongolóide, coxo por manco, corcunda por marreco, sem que isto significasse nenhum desrespeito pelas pessoas ou suas limitações. Falava-se assim, a linguagem simples do povo, às vezes com piedade, sempre sem maldade. Eu, pelo menos, nunca a tive. Ocorre-se-me isto por as crianças já aprendem na escola esta novilíngua, orwelliana, politicamente correcta. A filha chamou-me à atenção quando contava a «estória» dos meus primeiros cigarros e das que mos venderam, as corcundinhas. Duas primas que tinham um quiosque ali pelos Mártires da Liberdade, deficientes, e a quem assim chamávamos sem vontade de estigmatizar. Vou ali comprar «Provisórios» às corcundinhas e já venho, coisa que tantas vezes disse aos amigos, é para a cria linguagem a evitar. Não tínhamos maldade, dizíamos o que ouvíamos à gente simples, trabalhadora, que nos rodeava. De tanto não querer ferir com as palavras, desapareceram as expressões castiças da minha mocidade. Esta uniformização da língua também tem origem na escola. Os livros falam em frigideiras quando dizemos sertã, chamam às cruzetas, cabides, ao picheleiro, canalizador. Chegará o tempo em que por imposição estranha referir-nos-emos às coisas de igual forma, de norte a sul. Ninguém contabilizará os termos antigos que se perderam, nem se dirá o meu amigo preto, mas o meu amigo negro. Além de redutor, igualitário no mau sentido, é um modo de falar para sempre perdido.

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3 comentários

De Inês a 05.01.2017 às 11:11

Isto é tão verdade. Hoje já não podemos dizer nada que somos logo olhados de lado. Para mal dos meus pecados, sou pessoa de aplicar muitas vezes termos que agora ferem as almas mais delicadas (e pelos vistos, quase todas as almas são assim). Só para remate, e por causa do comentário acerca do Ricardo Araújo Pereira, o meu filho queixava-se que tinha que fazer umas análises sanguíneas, e "ai as agulhas", e "ai que já sei que me vou sentir mal", e ....., depois de muito o gozar para descomplicar a coisa, saiu-me um "és mesmo mariconço pá. Não tens vergonha?". Antes que haja alguém que se sinta melindrado, o meu filho tem 29 anos, não é mariconço e não ficou ofendido, nem eu o disse para o ofender (a ele ou a qualquer pessoa). Cá por cima ainda vai sendo assim! Como é lógico não ando na rua a tratar as pessoas de qualquer forma. Isto dava pano para mangas.
Beijinhos
Inês

De M a 05.01.2017 às 12:01

Desculpe invadir o seu espaço Fernando (novamente) só para responder à Inês, se ela também me permite, confesso que eu também uso expressões iguais com as minhas filhas, ou até o meu marido, pessoas amigas com quem tenho laços de à vontade e amizade, sem que veja nisso (e seja visto por eles) qualquer ofensa grave. O... "és mesmo maricas", neste caso, jamais o digo com entoação ou propósito depreciativo e apenas, como a Inês muito bem diz, para qualificar a "miúfa" que os homens têm ao serem menos "viris" (que também o viril, aqui, não sofra de alguma incompreensão) na administração de uma vacina ou injecção, quando muitas vezes, nós mulheres, até exemplificamos que se ficassem grávidos e alguma vez parissem morreriam certamente, ou o traumatismo seria tal que nunca mais tentariam outra. Há inúmeras expressões "afectuosas" que são motivo de discriminação hoje em dia e cair nos exageros para um lado ou outro não beneficia ninguém até porque não é por se andar com falsas moralidades que se respeitam mais as pessoas. Pessoalmente, não gosto muito do humor do RAPereira. Tem dias, como todos em que é bem sucedido no que diz, outros... devia estar mais calado. Mas, também eu! Afinal, temos de ver tudo isto com uma certa margem de "manobra" como tudo na vida! Interessa, sim, conservarmos os nossos hábitos, orgulharmo-nos das nossas raízes e preservar a nossa língua em todas as suas facetas e preciosismos. Um bom ano para si Inês e perdoe o atrevimento de lhe responder, mas quis apenas dizer que eu sou bastante fã de alguns "ditos" e até me sai uma boa asneirola amiúde, ou não fosse uma mulher filha de um homem do norte! E olhe que quando vou aí, acima o que mais me dá prazer é ouvir-vos! A sério. Até enche a alma. ImageImageDetesto gente com mania que não diz e que não faz. Todos dizemos e fazemos tudo. Nada de peneiras. Image

De Inês a 06.01.2017 às 09:59

Não considero atrevimento nenhum. Pelo contrário. Só queria explicar que me referi ao RAP por causa do termo "mariconço" sobre o qual ele escreveu, e que eu utilizei com o meu filho. Quanto a gostar do humor dele. Por norma até gosto, mas como tudo na vida, tem dias.
Beijinhos
Inês

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