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Os cães e os seus drogados.

por Fernando Lopes, 13 Mai 16

Quem andar a pé pela Boavista e baixa da cidade reparará que muitos cães adoptam o seu bêbado ou drogado. Por alguma estranha percepção sentem que aqueles homens estão mais frágeis, e nunca, nunca, os abandonam. Na rotunda temos vários casos desses; o drogado da muleta que corre sem ela e o seu cão, outro meio índio que tem sempre o cão atrás de si, o alcoólico – prefiro sempre a palavra bêbado, menos inócua – que é «auxiliar de aparcamento urbano» nas traseiras do Bom Sucesso. Já vi o bêbado enxotar o cão. Este colocou-se a uma distância prudente para evitar o pontapé ameaçador e continuou a sua tarefa de anjo da guarda. São os cães que tomam conta dos homens, ou o contrário? Devem os bichos pressentir quando alguém está prestes a perder a sua humanidade face ao vício. Querubins improváveis, tomam conta e são ajudados. É uma ligação bonita, cooperativa, em que nenhuma das partes necessita verdadeiramente da outra, mas em que duas solidões se transformam numa relação. Cuidar e ser cuidado não é coisa de gente ou de cão, o amor apresenta-se de mais formas do que imaginamos.

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3 comentários

De Carlos A. de Carvalho a 13.05.2016 às 20:59

Quem mais pode dar amor incondicional, amizade sem pedir nada em troca, afeição sem esperar retorno, proteção sem ganhar nada, fidelidade vinte e quatro horas por dia? Ah! Não me venham com essa de que os pais fazem isso, porque os pais são humanos. E quando os agredimos eles ficam irritados e se afastam...

Um cão não se afasta mesmo quando você o agride, ele retorna cabisbaixo pedindo desculpas por algo que talvez não fez, lambendo suas mãos a suplicar perdão.
Alguns anjos não possuem asas, possuem quatro patas, um corpo peludo, nariz de bolinha, orelhas de atenção, olhar de aflição e carência.

De pimentaeouro a 16.05.2016 às 11:06

Infelizmente não posso ter um amigo desses.

De Fernando Lopes a 16.05.2016 às 18:56

Há raças que não dão grande trabalho e fazem imensa companhia, mas concordo que os animais são uma prisão. Quando o meu cão ficou senil passei seis meses a dormir no sofá para tomar conta dele. 

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