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Os cães e os seus drogados.

por Fernando Lopes, 13 Mai 16

Quem andar a pé pela Boavista e baixa da cidade reparará que muitos cães adoptam o seu bêbado ou drogado. Por alguma estranha percepção sentem que aqueles homens estão mais frágeis, e nunca, nunca, os abandonam. Na rotunda temos vários casos desses; o drogado da muleta que corre sem ela e o seu cão, outro meio índio que tem sempre o cão atrás de si, o alcoólico – prefiro sempre a palavra bêbado, menos inócua – que é «auxiliar de aparcamento urbano» nas traseiras do Bom Sucesso. Já vi o bêbado enxotar o cão. Este colocou-se a uma distância prudente para evitar o pontapé ameaçador e continuou a sua tarefa de anjo da guarda. São os cães que tomam conta dos homens, ou o contrário? Devem os bichos pressentir quando alguém está prestes a perder a sua humanidade face ao vício. Querubins improváveis, tomam conta e são ajudados. É uma ligação bonita, cooperativa, em que nenhuma das partes necessita verdadeiramente da outra, mas em que duas solidões se transformam numa relação. Cuidar e ser cuidado não é coisa de gente ou de cão, o amor apresenta-se de mais formas do que imaginamos.

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3 comentários

De Anónimo a 14.05.2016 às 11:38

Sou o cão de mim próprio. Não tem resultado grande coisa.
Filipe sarnento

De Fernando Lopes a 14.05.2016 às 13:06

Fizeste-me lembrar o «Timbuktu» do Paul Auster, também és uma alma perdida à procura de nova dona. :)

De Anónimo a 14.05.2016 às 15:12

Timbuktu c´est moi...

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