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Dia 5 – Estrada Fora.

por Fernando Lopes, 15 Jul 15

estrada fora.jpgA bordo da pick-up vermelha

 

Longe de mim dar uma de Kerouac, até porque a ilha apenas tem uma estrada alcatroada. Existem mais duas ou três de paralelos em bastante mau estado, mas para conhecer os locais emblemáticos é necessário andar sobretudo por caminhos em terra batida e alguns troços nem o epíteto de caminhos merecem, são apenas sulcos da passagem diária de veículos todo-terreno. O único meio de se deslocar é em veículos 4x4. Aqui, como no Sal, são usadas sobretudo pick-ups, com a caixa aberta transformada com duas filas de bancos frente-a-frente. Os mais aventureiros têm a possibilidade de andar de moto 4, e aviso já que alguns percursos têm dificuldade elevada para principiantes.

 

 

Segundo me informaram, a única tradição da Boa Vista é a olaria, e em Rabil existe uma pequena escola onde podemos ver e comprar artesanato típico. O acordado foi um percurso de 5 horas, pela módica quantia de 80 euros, o que dividido por 5 é uma quantia bastante mais em conta que as propostas tradicionais dos operadores turísticos.

Aconselha-se levar água e a tomar banho em protector solar, pois mesmo eu, de tez árabe, não teria escapado a um gigantesco escaldão depois de 5 horas ao sol e solavancos na carrinha de caixa aberta.

 

Às 9 já o Sami estava à nossa espera. Um jovem de 29 anos, como a maioria da população da ilha. Toda a Boa Vista está pejada de juventude, uma agradável variante para quem sai de um país e continente envelhecidos.

 

Fugimos à enchente da olaria e vamos directos ao deserto de Viana. É um deserto de areia fina, batida pelo vento, fixado por paredes de pedra e umas redes colocadas para reter as areias que pairam no ar e que são também trazidas pelos ventos do continente. Não é muito diferente do deserto de areia que conheci em Marrocos ou Tunísia, apenas bastante mais pequeno.

 

Sammy.jpgO nosso condutor e guia Sami

 

1 Deserto de Viana 2.jpgUm arbusto resiste no Deserto de Viana

2 Deserto de Viana.jpgVista de uma das dunas

 

Daí seguimos para a praia de Santa Mónica, que o improvisado guia diz ter mais de 18 kms. Certo é que é praia tanto quanto a vista alcança sem uma única construção. A paisagem permanece intocada porque, por graça de Deus, não existe um caminho aceitável que permita transportar materiais. Face ao areal imenso e águas quentes, azul-turquesa, temo que não permaneça com o seu encanto virgem durante muitos anos.

 

3 praia de santa monica.jpgPraia de Santa Maria, areal intocado de 18 km de extensão

 

Por caminhos em que até as cabras têm dificuldade em andar, seguimos para a praia da Varandinha, onde avisto um magnífico corvo que se diverte a sobrevoar as dunas e rochas. Diz-me o Sami que aqui é local para quem gosta de surf e indica uma gruta, a Buracona. Apesar do apelativo do nome, é apenas rocha esculpida pelo mar. Lá repousava um tronco de uma árvore, numa posição fetal, quase humana.

 

4 praia da varandinha.jpgPraia da Varandinha

5 buracona.jpgGruta da Buracona

zona de desova.jpgCuidado com as tartarugas

 

Com os rins feitos num oito e o rabo quadrado, vamos por um caminho de pedras até à Povoação Velha. Uma pequena aldeia familiar, com casas bem cuidadas, e onde consta, habitam os boavistenses mais abastados. Não faltam um Centro de Juventude e uma Igreja. Antiga capital, distingue-se das restantes pelo esmero de ruas e habitações.

 

centro de juventude da povoacao velha.jpgCentro de Juventude (Povoação Velha)

igreja do nazareno.jpgIgreja na Povoação Velha
 encruzilhada.jpgEncruzilhada

 

De seguida, e evitando as hordas de turistas, deslocámo-nos até à oficina de olaria. Uma vez que somos os únicos visitantes, temos tempo de trocar conversa e até discutir futebol. Maioria benfiquista, mas encontramos um portista que nos recorda o jogador Rolando, do F.C. do Porto, também ele cabo-verdiano.

 

escola de olaria.jpgEscola de olaria e as tartarugas símbolo da ilha

 

vista de rabil.jpgVista de Rabil

 

Para terminar fomos ver um dos ícones da Boa Vista na Praia Cabo de Santa Maria, o famoso barco encalhado em 1 de Setembro de 1968.  O barco carregava valiosa carga como carros, armas, máquinas e produtos de saúde. Durante um ano retiraram tudo o que era possível do navio, ficando este como testemunho do tempo e inclemência da natureza.

Curiosamente, a praia deve o seu nome ao barco, já que antes se chamava praia da Boa Esperança.

 

passagem do tempo.jpgA degradação do Cabo de santa maria entre 1968 e 2009

 

barco.jpgO que resta em 2015

 

Regressamos por entre cabras e burros, certos que haverá outras visões possíveis da Boa Vista. Cada olho vê da sua maneira, cada coração sente a seu modo, este é tão-somente o meu.

 

cabras.jpgAs sempre presentes cabras

burros.jpgUm macho tentou a sua oportunidade. A fêmea não estava para aí disposta, o desgraçado levou um coiçe que até a mim doeu

 

 

Scan0025.jpgCartões do Zé Silva e Sami, ao cuidado de eventuais interessados

 

 

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