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Das praxes, praxados e afins.

por Fernando Lopes, 28 Jan 14

Nos anos 80 as praxes eram uma quase ausência. Vieram pela democratização do ensino superior, pelas universidades privadas a querer exibir tradição inexistente. Com a proliferação de (re)cursos nos anos 90, o neto da Zulmirinha, caseira do sr. dr., filho do Tony, ladrilhador de 1ª, recentemente entrado em Engenharia de Minas com espantosa média de 9,5, sentiu-se igual à velha aristocracia. Vá de praxar, numa vingança de classes, ele que nunca viu a avó tomar banho, achava normal que se tapasse o forno com bosta, coçava os colhões em público enquanto escarrava, como sempre viu os seus fazerem. Mas era dr. ou eng. num qualquer curso em as propinas asseguravam percurso tranquilo a quem possuísse conhecimentos equivalentes ao Trivial Pursuite Junior. Como epidemia, propagou-se. Quem foi criado na bosta pode encher-se dos mais caros perfumes, mas a dita dificilmente lhe sairá da corrente sanguínea. E não, isto não é teoria classista, é educação básica, bem que escasseia da primária às velhas universidades. É necessário ser claro, a massificação do ensino falhou, senão na parte académica – e mesmo aí tenho sérias dúvidas – na formação cívica e de cidadania. Caso contrário as praxes seriam um capítulo negro votado ao esquecimento.

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4 comentários

De Carlos Azevedo a 28.01.2014 às 20:26

Fernando, percebendo o que quiseste escrever (desculpa-me a arrogância, mas acho mesmo que sei o que querias escrever; e com isso, que ainda assim seria discutível, eu tenderia a concordar), não consigo concordar com o que eefctivamente escreveste. Porque:
1) Estabeleces uma correlação entre o retorno da praxe e a democratização do ensino superior que pode não ser mais do que uma coincidência temporal, explicada mais por razões políticas do que outra coisa qualquer (a juventude universitária dos anos 60/70 era muito mais politizada, preocupando-se com outras coisas, e muito daquilo em que se traduz a praxe seria pura e simplesmente inadmissível à luz dos costumes da época);
2) Praxar não é exclusivo das primeiras gerações a aceder ao ensino superior;
3) Como tu mesmo assumes, num comentário, saiu-te arrogante (e.g., «Quem foi criado na bosta pode encher-se dos mais caros perfumes, mas a dita dificilmente lhe sairá da corrente sanguínea»), sabendo eu que a arrogância não é algo que te assista.
Abraço.

De Fernando Lopes a 28.01.2014 às 21:37

Carlos, provavelmente tratou-se de «um problema de expressão».
1) Quando entrei na FLUP , no longínquo ano de 1982/83 tenho a noção de que na UP o ritual de praxe não exista ou era insignificante, excepção feita à Católica e à Livre. Sem disso ter certeza absoluta, até porque nunca fui de vida académica, mas de boémia, parece-me que o ressurgimento das praxes está associado à «democratização» do ensino superior, que está ligado à melhoria das condições socioeconómicas e ao surgimento de estabelecimentos privados. Sou franco, ser universitário na época era um luxo a que só os melhores alunos podiam aspirar;
2)Praxar não é exclusivo das primeiras gerações mas quase, é o que me diz a minha experiência empírica. É (era) um meio de ascensão social em que o «praxador» se integrava socialmente com os filhos dos drs. tornando-se igual entre iguais;
3)Essa foi mesmo um tiro no pé. Leia-se «quem é mal-educado, pode encher-se de doutoramentos, mas dificilmente se livrará da má-educação genética.»

Posto isto coloca-se a questão revolucionária; devem as elites descer ao nível das massas ou «puxar» por estas fazendo-as ascender a níveis de conhecimento e civismo superiores? Aposto claramente na segunda.

Abraço.

De Carlos Azevedo a 29.01.2014 às 00:31

Fernando,

a minha experiência foi diferente: os alunos universitários de primeira, segunda ou terceira geração, tanto faz, eram exactamente iguais; e, quase sempre, eram umas bestas. Corrobora o que eu penso o facto de referires que no início dos anos 80 existia praxe na Católica. A Católica sempre foi uma universidade elitista, e mais o era há 30 anos atrás. Ainda assim, lá está, a praxe existia lá, no meio dos ‘queques’.

Quanto à minha experiência com a praxe, quando entrei para o Ensino Superior, em 1994, as praxes, pelo menos na Universidade do Minho, ainda não tinham atingido o grau de abjecção a que assistimos nos dias de hoje. Em todo o caso, fui praxado e sempre soube dizer «não» quando me exigiam algo que não me parecia adequado, e nunca me pediram nada que se assemelhasse ao que vou sabendo pela comunicação social (e.g., num dia de chuva, queriam que eu me deitasse no chão molhado de barriga para baixo; recusei fazê-lo e ponto final). Quando passei para o segundo ano, e até ao final do curso, não praxei ninguém, à excepção de um caloiro a quem pedi para ir comprar comida (com o meu dinheiro) para um cão abandonado que andava a vaguear pelas instalações da universidade, tendo sido uma desculpa (ir ele e não eu, quero dizer) para ele sair dali sem eu ter que me chatear muito (o rapaz era do interior, tinha um sotaque muito forte e naquele dia estavam fartos de pegar com ele). Portanto, a minha grande questão é: como é possível que pessoas com pelo menos 18 anos e 12 anos de instrução, seja lá qual for o seu poder socioeconómico e a cultura pessoal e familiar, se comportem com carneiros num rebanho? Não percebo.

Abraço.

De Fernando Lopes a 29.01.2014 às 00:52

Tu não existes, pá. O teu conceito de praxe é «mandar» um tipo que está a ser vítima de bullying ir comprar comida para um cão esfomeado, afastando-o dos agressores? Quem te ler, parece que não sabes nada sobre manipulação de massas e comportamento de grupo, hehehe. Aí não que não percebes. ;)

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