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Sou um tipo difícil, e no entanto fácil de ser levado, basta falarem-me ao coração ou convencerem-me de modo delicado. Se optarem por confrontação temos o caldo entornado. Não é bonito admitir, mas fui muitas vezes rapaz de briga fácil. Ainda hoje, provocado fisicamente, tendo a reagir à bofetada. Aprendi a expensas próprias que numa luta é mais importante saber encaixar a pancada e distribuir tabefe com galhardia que eliminar o adversário à moda de Hollywood.

 

Sem aspirações à perfeição, sou tolerante comigo, habituei-me às qualidades e sobretudo aos defeitos. Cristalino, poderia ser definido num anglo-saxónico «what you see is what you get». Mas as mulheres, sempre as mulheres, são de uma obstinação inquebrantável. Casado há 21 anos, quase não há dia em que a dona cá de casa não manifeste o seu ímpeto reformista. Porque sou preguiçoso, procrastino, não abandono vícios e manias. 7.665 dias a tentar que mude. Sem resultado. E no entanto insiste.

 

Sexta, um querido amigo apresenta o seu primeiro livro. O que nos rodeia desde que nos conhecemos mudou substancialmente. A minha estima e admiração, não. Por questões de logística familiar perfeitamente compreensíveis não é sensato ir toda a família. Aceito. Mas a minha santinha não desistiu de mandar a farpa habitual: Vens dormir a casa ou vais dormir por lá? – Um modo não muito subtil de me questionar se tenciono ir para os copos após a apresentação.

 

7.665 dias, 183.960 horas, 11.037.600 minutos depois, ainda coloca a hipótese de me comportar como seria esperado. Claro que vou ser desbragado, obviamente só em caso de calamidade não virei dormir a casa. Não desiste de me transformar no que acha que deveria ser. Há que admirar-lhe a tenacidade.

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2 comentários

De .. a 06.12.2014 às 10:39

Pronto! Tirando a parte dos copos, mas deixando ficar a do caldo aqui está a minha versão masculina, se me permite a comparação. É um não si quê de gostar de fazer precisamente o contrário do que seria "melhor." Já não me sinto tão deslocada! Nem tão animal selvagem :) Bfsemana e tudo a correr lindamente.

De Fernando Lopes a 06.12.2014 às 11:16

A avó dizia que eu era «um espírito de contradição», uma maneira simples e simpática de pôr as coisas. Provavelmente há uma infinidade de gente como nós.

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