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Esmagado pelo nada.

por Fernando Lopes, 17 Dez 13

Nado e criado o centro da cidade tenho pouca ou nenhuma relação com os subúrbios. Não existe ponta de elitismo da minha parte, simplesmente as amizades, lojas, figuras que conheço, são do centro da cidade, é esse o meu mundo. Estou mais à-vontade em Guimarães ou Arcos de Valdevez que em Gaia, Ermesinde, Rio Tinto, Gondomar ou mesmo na zona oriental da minha cidade. Nunca tive relações nesses locais e a eles quase nunca me desloco.

 

Hoje, por razões que não vêm ao caso, tive de ir a S. Mamede. Enquanto fazia horas resolvi tomar café. Foi um regresso ao passado no seu pior. Mal transponho a porta, um cheiro a bafio que se impregna na pele. Todo o mobiliário parece estar lá desde sempre, suponho que o local não conheça uma renovação desde os anos sessenta do século passado. Duas mulheres na casa dos sessenta tomam pequeno-almoço. Uma está de fato de treino e sapatilhas, com um impermeável por cima. Apesar de o pão estar partido, não o trinca, desfá-lo com a mão em pequenos pedaços que mete à boca. À minha frente a outra mulher, que vejo apenas de costas tem um cabelo não vê água há semanas. Não é oleosidade normal, é desleixo puro e simples, falta de higiene.

 

Chega o dono do café, careca com os poucos cabelos pintados de um preto muito vivo realçando aquela anomalia cromática. Tem um pullover cinzento, decorado de nódoas, bem enquadrado com o ambiente.

 

Único sinal de modernidade dois enormes LCD. Fala uma Maria, astróloga e vidente, que lança as cartas para espectadores que telefonem para um qualquer 760. Quem liga está desempregada e leva logo ali com uma lição de moral “tem de se agarrar ao que aparecer”, “nos tempos que correm qualquer trabalho é bom”, diz a velha pitonisa, certamente discípula da escola filosófica Passos Coelho.

 

Saio quase a correr para a chuva, o peito amassado pelo odor a desespero e passividade que se impregnou naquelas pessoas. Respiro longamente, aliviado. Não deve ser fácil viver esmagado pelo nada.

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1 comentário

De Anónimo a 17.12.2013 às 23:10

Caro Fernando
Nunca pensou em escrever um romance, um policial, o que quer que seja? Sem ironia...Ao ler o texto é como também visse e sentisse o que sentiu...até o cheiro bafiento!
Escreve muito bem, sabia?
O que descreveu reflete bem a decrepitude deste povo, a resignação salazarenta que corre nas veias dos mais velhos e que pelos vistos contagia os mais novos.
Abraço

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  • M Manel

    Só agora vi a mensagem anterior - note-se que quem...

  • M Manel

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  • Anónimo

    Não volta?!Vá lá...Escrever faz bem...e ler também...

  • Anónimo

    Que será feito do gerente desta coisa?Filipe em es...

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