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A D. Maria afogava os gatos.

por Fernando Lopes, 26 Jun 13

Quase todas as casas de Álvares Cabral tinham um jardim e um quintal. Tínhamos um enorme limoeiro, que dava fruto até os galhos esgaçarem com o seu peso; couves para as galinhas ou sopa, hortelã, o galinheiro. A avó gostava dos ovos, “amarelinhos, não são como os do supermercado”, dizia.

 

Era raro matarmos uma galinha, e quem o fazia era sempre a D. Maria. Atarracada, descias as escadas para o seu quintal sempre de lado, com visível dificuldade. Vestia sempre uma bata muito suja, o cabelo muito curto aos caracóis, uma personagem um bocado ridícula.

 

Há 40 anos não havia “direitos dos animais”, pílulas para gatas ou cadelas, esterilização de machos ou fêmeas. De quando em vez, entre jarros, rosas de Santa Teresinha e hortênsias, uma gata vadia paria. Logo a D. Maria exercia o papel de controladora da população felina, afogando os gatinhos num balde. O horror sempre foi superior à curiosidade, nunca assisti à matança. Sinto-me tão amedrontado e impotente como quando em criança fugia para não ouvir os gritos dos gatinhos.

 

Preciso de correr para não sentir os clamores que vêm de todo o lado, numa tentativa de escapar à angústia que floresce nas ruas, entranha nas gentes e apodera de mim.

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