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Desdém

por Fernando Lopes, 13 Set 12

Em frente ao Shopping Cidade do Porto costuma assentar poiso uma velhinha que, de mão estendida, pede num murmúrio. A sua postura retraída, voz baixa, submissão que transborda, não são potenciadores da generosidade dos transeuntes, tornando-a invisível para os menos atentos. Temo que, no fim do dia, pouco mais amealhe do que o suficiente para um pão e duas fatias de fiambre. Como Sísifo, ela ali permanece, numa espécie de castigo eterno, estendendo a mão à caridade. No edifício central estão instalados vários escritórios de advogados e um dessas consultoras internacionais, a Delloite. Quando chegam à rua, os jovens consultores parecem saídos de uma forma. Têm todos entre 25 e 30 anos, pala no cabelinho, fatos Massimo Dutti, ar de quem estudou na Católica. Não poderiam ser mais iguais se fossem sósias. Olimpicamente, ignoram a idosa, olhando-a com um o desprezo inerente à sua condição de casta superior. E é impossível não estabelecer um paralelo entre os betinhos recém-formados na prestigiada universidade e o governo de Portugal. Ambos se estão absolutamente nas tintas e manifestam até um certo asco perante as classes baixas, os pobres e humilhados. Nem um pingo de empatia, um sorriso. Desdém, só.

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