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Ainda o fogo.

por Fernando Lopes, 21 Jan 17

Talvez os meus melhor anos tenham passado, contudo, não os quero de volta. Nada é como dantes, e, no entanto, algo em mim permanece intocado, rude, selvagem, como se de um rapazinho se tratasse. De uma maneira só minha, nunca envelheci. Sou capaz de chorar como um bebé, dançar como um louco, rir como um parvo, apaixonar-me como um adolescente. Deve ser a isso que chamam «estar vivo».

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Em contra-mão.

por Fernando Lopes, 20 Jan 17

Como a maioria das pessoas «do meu tempo», fui educado com padrões éticos que hoje são considerados antiquados, desajustados, sem valor. O que antigamente seria gabarolice hoje é auto-estima; a compaixão é vista como uma fraqueza; o carácter como algo adaptável aos que nos rodeiam e às suas circunstâncias; a lealdade algo que se vende por bem menos de trinta dinheiros; a forma mais importante que o conteúdo. Por estas e outras, este tempo do «pós-ética» já não é o meu. O problema, se é que existe, é que algumas pessoas mais velhas embarcam alegremente nesta onda pouco recomendável para se sentirem modernos. Não ambiciono viver neste momento em que tudo é negociável, em que a integridade é algo que, como um ramo de árvore, baloiça ao sabor do vento. Assim, como um velho tonto que se enganou na entrada da autoestrada, circulo em contra-mão. A vantagem é que por muito que achem que vou no sentido errado, sei que o caminho é o que a minha consciência – algo também em desuso – me diz para seguir.

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Tudo e um par de botas.

por Fernando Lopes, 19 Jan 17

Muitas mulheres têm rituais sazonais com roupa. Mudam as coisas do armário de verão para o de inverno, colocam umas num local prioritário em relação às restantes. Nenhum homem perde tempo com isso. Gajo que é gajo está-se nas tintas, apenas veste uma camisola quando está frio, nem sequer sendo muito exigente com o que lhe calha em sorte, bastando que esteja lavada. A chefa cá de casa andou a organizar os trapinhos, aproveitou para me propor uma limpeza dos meus. Tinha coisas que não vestia desde os anos 90, mas porra, eram as minhas coisas. Ora eu tenho «roupa afectiva». Explico o conceito: preservo um blusão de pele há mais de trinta anos porque a minha avó mo deu e porque naquela altura custou cinquenta contos, uma pequena fortuna; existem Levi's já meias podres que me recordam momentos felizes e não quero delas abdicar; tenho uma t-shirt de cada país que visitei e não planeio deita-las fora; conservo algumas tralhas de juventude porque me recordam esses tempos de Frei João Sem Cuidados. Obviamente, tive de ouvir a piada: mas é tudo afectivo para ti? É. Sou um tipo de afectos, até com as roupas crio algum tipo de relação. São cenas de gajo, minhas, as meninas não têm que compreender, apenas aceitar. Só um gajo ganharia alguma forma de amor a um par de botas.

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perola_negra.jpg

 

Estou a almoçar e vejo na televisão sem som uma reportagem sobre o mítico «Pérola Negra». Para os que não conhecem o Porto, o local teve, pelo menos, duas vidas. A primeira, no início do dos anos 80, o único sítio do país com shows de sexo ao vivo. Não sendo um habituée assisti a duas ou três performances inenarráveis, como a da senhora que, entre outras maravilhas, enchia balões com o pipi, ou a recriação de uma outra que, literalmente, trazia uma estátua grega à vida. A segunda, já como strip club em várias moças em pouca ou nenhuma roupa, faziam «acrobacias» no varão. Leio na internet, e o actual proprietário propõe-se transformar o sítio numa discoteca normal, mantendo o kitsch da decoração, agora renomeado de vintage. Para mim «Pérola Negra» será sempre sinónimo de bas-fond, por mais que lhe queiram lavar a cara, dar respeitabilidade. Podes tirar a puta da vida, mas não a vida da puta. 

 

 

P.S. - Antes que feministas venham lançar-me maldições por causa do título da posta, cumpre esclarecer que acredito que todos devem ter uma segunda oportunidade. Trata-se tão-somente de constatar que a nossa «estória» é parte indelével das nossas vidas.

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I fought the law and the law won.

por Fernando Lopes, 16 Jan 17

Como moro muito perto da estação de metro da Avenida de França, venho por uns quelhos para cortar caminho, passo junto ao metro, táxis e paragens de autocarros, o famoso «interface». Na rua estacionam imensos carros de pessoas que o usam para ir para a baixa. Hoje a polícia estava a multar alguns deles, que embora em local «ilegal», não incomodam ninguém. Um dos bófias vê-me vindo de 5 de Outubro e, no meio da rua, vira-me ostensivamente a enorme peida. O filho da puta acha que ser autoridade lhe dá imunidade ao atropelamento. Fiquei com o pé preparado para acelerar a fundo e uma mão por cima da buzina. Ao contrário do que me é habitual, racionalizei e nada fiz, melhor, esperei que aquele cu sem fim me saísse da frente. Quando um agente da autoridade dá este exemplo, está tudo dito sobre a merda de país que temos. Um pardieiro em que os que são mandatados para cumprir a lei, pagos por nós, encontram prazer nestas afirmações menores de poder.

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Photo Opportunitity.

por Fernando Lopes, 15 Jan 17

 

Gosto muito de fotografar pessoas embora raramente o faça, excepção às fotos familiares. Aquela treta de «uma imagem vale mais que mil palavras» é, ocasionalmente, verdadeira. Caminhava em frente à igreja do Marquês quando vejo um casal de idosos. Um com uma muleta no braço esquerdo, outro com idêntico aparelho no direito, o braço sobejante dado ao companheiro. Uma coisa enternecedora, uma imagem da vontade férrea daquele casal em caminhar junto, apoiando-se. Peguei no telemóvel e preparei-me para os fotografar de costas. Uma photo opportunitity como poucas, um momento singular e belo. Apontei, desisti. Algo me dizia que estava a invadir a privacidade daquela dupla de resistentes. Ficam esta pobres palavras, que por muito eloquentes que fossem nunca conseguiriam descrever a grandeza daquele momento e casal.

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Profetas.

por Fernando Lopes, 13 Jan 17

A turba gosta do sentimento de pertença, vai daí afadiga-se a militar em associações várias, de clubes a partidos, passando por sindicatos, associações culturais e recreativas, clubes de golfe, religiões esotéricas ou nem por isso. Talvez por ter sido descartado pelos meus pais desde os três meses de idade, nunca a nada pertenci. Gosta o maralhal de se sentir parte de algo maior que si mesmo, transformando a pólis de cidadãos em algo muito similar a rebanho. Todo o grémio precisa de pastor, logo surgem bem intencionados, falsos profetas, charlatães, manipuladores, e espécies variadas, que ao que dizem, trabalhando em prol da cáfila, se abocanham ao maior pedaço. Que as sanguessugas façam pela vida é normal, da sua natureza. Pasmo perante a adulação dos cretinos que, enganados, roubados, secundarizados, seguem alegremente o líder, acriticamente incensando quem chegada a hora se deles descartará como se enxota incómodo muscídeo.

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Ficar sóbrio.

por Fernando Lopes, 12 Jan 17

À minha volta, amigos embebedam-se de paixão. Contrariamente ao que o vulgo diz, estar apaixonado é igual aos 20, 30, ou 50. A diferença só é notória porque existem menos expectativas em relação ao outro, aprendemos a aceitar mais, a tolerar melhor. Um amigo de longuíssima data confessa que só consegue viver nesse estádio, só esse entusiasmo pueril o faz feliz. Por natureza sensível ao estado de alma do outro, gosto de os ver assim, com um sorriso de orelha a orelha, como se nada mais importasse que o amor. Sendo homem de poucas mas fortíssimas paixões, entendo-os, abraço-lhes o coração, vivo pelos olhos dos outros. Embora aprecie estes momentos de inebriamento, enlevo, aconselho-os a ficarem sóbrios. Essa voragem que tudo consome não pode – ou não deve – ser o estado primeiro de alguém. Depois vejo que no fundo todos ambicionamos essa tonta felicidade permanente. Uns vivem para ela, outros habituam-se a mares menos capelosos. O meu conselho é treta. Vivam tão intensamente quanto for possível, entreguem o coração, corpo e alma, tanto quanto conseguirem. Quem não anda num permanente precipício só vive pela metade.

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Mensagem na parede.

por Fernando Lopes, 7 Jan 17

disconnected.jpgDe modo gráfico, o que aqui já escrevi várias vezes: uma cabeça brilhante desligada do coração, nada vale.

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700 gramas.

por Fernando Lopes, 5 Jan 17

Não, não é um remake do mítico «21 gramas», nem a minha alma tem a pretensão de pesar os 21 gramas, quanto mais 700. 700 (setecentos por extenso) é o peso que perco de cada vez que vou ao ginásio, mesmo que beba um litro de água. Banha a derreter, só a sensação revigorante que dá uma banhoca depois, vale a pena.

 

Hoje fui mais cedo e andavam por lá duas ou três ninfas e duas ninfetas. Se os rapazitos tivessem um ataque de agudo de testostateronite e se pusessem a exibir como loucos, seria compreensível, dança do macho para acasalar e essas merdas todas. Dá-me vontade de rir, porque são os tipos já perto dos 40 que fazem as figuras mais patetas. Depois olho para os brinquinhos, os braços cheios de tatuagens e o repetir incessatemente «que cena» e digo para com os meus botões: a cabecinha não dá para mais, têm mesmo de pensar com os tomates.

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