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Notas soltas (2).

por Fernando Lopes, 28 Set 16

Não conheço muita gente com um património imobiliário superior a um milhão de euros. Mademoiselle Mortágua ignora uma coisa básica: a classe-média tem pretensões e aspirações a rica. O tipo do T3 de 150.000 euros em Ermesinde sonha ter um T5 na Foz, a quinta no Douro, a vivenda em Albufeira. Para além do aproveitamento político das palavras da Mariana, a menina devia saber que os maiores defensores dos ricos são os tesos aspirantes a Crésus.

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Notas soltas (1).

por Fernando Lopes, 28 Set 16

Deixemo-nos de merdas, o Deutsche Bank está falido. Se isto me dá um certo gozo? Sem dúvida. É um desastre há muito anunciado, o sistema bancário alemão era muito mais frágil que o que aparentava, baseado em pequenas caixas locais, os Landesbank, cheiinhos de crédito mal parado, o próprio Deutsche atolado no crédito hipotecário subprime. Em algum momento havia de estoirar, é por estes dias. Já se sabia há tempo. O problema é que a europa não suporta outra crise bancária, agora de uma dimensão estratosférica. Não sei se ria, se chore.

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Lagartixa.

por Fernando Lopes, 26 Set 16

Insignificâncias ganham ocasionalmente valor de revelação. O fim-de-semana passado estava no churrasco quando vejo no lavatório ao lado uma lagartixa que se debatia desesperada a tentar subir a superfície lisa e íngreme de inox. Observei as tentativas durante uns segundos, e decidi ajudar. Assim que sentiu o meu dedo a empurrá-la, tentou subir ainda mais rapidamente, movimentos de medo puro. Consegui colocá-la fora daquele fosso. Saltou para a tijoleira, depois para a parede de granito. Ficou durante uns segundos a recuperar, voltou-se para mim. Parecerá coisa de amalucado, mas quase aposto que estava a agradecer.

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Este fim-de-semana foi assim. (*)

por Fernando Lopes, 25 Set 16

arcos1.jpg Acordar ao som do nevoeiro.

 

arcos2.jpgSaber que ainda existem bogas no rio.

 

 

arcos3.jpg Olhar para trás a caminho do café «O Cunha» e ver isto.
 

 

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Boosters Intensificadores Anti-Age.

por Fernando Lopes, 21 Set 16

boosters.jpg Rua Júlio Dinis, Porto

 

Zézinho foi almoçar. Resolveu dar uma volta ao quarteirão e deparou com isto. Precisei de dois ou três segundos para – tentar – entender o que ali está escrito. Parece que é um tratamento intensivo anti-envelhecimento. Já tinha visto o uso disparatado de anglicismos, mas este supera tudo, duvido que 80% das potenciais clientes entendam a mensagem. Não valia mais um «bora lá pôr-te como nova?».   

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Cisma grisalho.

por Fernando Lopes, 20 Set 16

O restaurante onde almoço diariamente tem tido um empregado novo quase todas as semanas. Primeiro foi um jovem, mesmo muito jovem, depois um rapaz empertigado com ar de quem estava a servir caviar e não bife com molho de francesinha, um outro já perto dos sessenta com enorme boa vontade e memória curta. A transformação social e cultural que vivemos, a crise, o medo de perder o emprego, a competição desenfreada, levaram a que seja cada vez menos agradável trabalhar, o trabalho passou a ser mais palco de luta pela sobrevivência que local de camaradagem.  Muitos patrões aproveitaram este momento de mudança de paradigma para exercerem poder de uma forma arbitrária, discricionária, transformando o trabalhador numa «coisa» facilmente permutável. Quando vi por lá o senhor, já bem passado dos cinquenta, confesso que tive uma certa pena por um tipo daquela idade ser obrigado a competir com miúdos que poderiam ser seus filhos, quase netos. Não deve ser fácil. O momento político anterior aplicou a velha máxima do «dividir para reinar». Pegou, e tendemos a ver no vizinho do lado um competidor em vez de um companheiro. Pôs novos contra velhos, trabalhadores do privado contra os do público, a isto chamou «cisma grisalho». Temo que este momento, como um cancro, tenha alastrado de tal modo pela sociedade que seja difícil voltar aos tempos em que nos ajudávamos uns aos outros. Sempre houve conflitos, ambições, egos inflados, graxistas, sacanas, mas eram uma minoria que se negligenciava como algo disfuncional.  Hoje são esses e os idiotas úteis altamente valorizados, sobreviventes a não se sabe quê ou quem. Uma sociedade que perde a sua humanidade nos ambientes de trabalho, inexoravelmente, irá perdê-la em todas as outras áreas.

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Informação inútil.

por Fernando Lopes, 19 Set 16

Um destes dias, no trabalho, e a propósito de alfaiates, mandei para o ar a piada:

 

- O sr. aparta à esquerda ou à direita?

 

Ninguém percebeu, mas eu explico: quando os fatos ainda eram uma peça artesanal esta era uma pergunta costumeira, para dar um pouco mais de pano à esquerda ou direita para arrumar a genitália. Com o advento do pronto-a-vestir, já ninguém quer saber se nos dá mais jeito a folga de um lado ou de outro. Não é que estejamos mais pequenos que os nossos antepassados, a modernidade é que nos obrigou a «estacionar em menos espaço».

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Mulher sem rosto.

por Fernando Lopes, 17 Set 16

Mulher_sem_rosto.jpgMulher Sem Rosto, Rua de Sá da Bandeira, Porto

 

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Artur.

por Fernando Lopes, 15 Set 16

Mal abrem a porta entra-me pelas narinas aquele odor característico dos lares, uma mistura indefinível de urina, lixívia, e desinfectante perfumado. Um velho caminha sem rumo apoiado por duas bengalas. Pelo corredor circulam as auxiliares, bata rosa, as enfermeiras de branco vestidas, pobre imitação de querubim. Ao fundo do corredor a enfermaria, de onde uns irão sair recuperados, outros para os tratos de um qualquer gato pingado. Desço o elevador para a sala de convívio e refeitório. É hora de almoço, apenas dois resistentes no sofá a olhar hipnotizados para o ecrã da televisão. Na sala de refeições a comida tem o aspecto de papa. Sei que assim é porque a maioria dos comensais há muito perdeu os dentes ou mais não tem que uma placa que obstinadamente lhes dança na boca como se tivesse vida e vontade própria. Muitos têm uns enormes babetes plásticos, como se fossem crianças ou estivessem numa qualquer festa da lagosta.

 

A vida num lar é como jogar à roleta russa sem arma.

 

A um canto uma senhora numa cadeira de rodas. Muito encolhida e enrugada, já pouco maior é que uma criança de seis ou sete anos. Sobre o colo um xaile rosa, talvez ainda feito à mão, talvez uma peça barata comprada nos chineses. A cabeça tomba-lhe sobre a esquerda enquanto murmura qualquer coisa incompreensível. Depois desata a gritar:

 

- Ó Artur, Artur! Ó Artur.

 

Faz isto uma meia-dúzia de vezes, pára e logo recomeça. Alguém me conta que chama pelo marido, morto há mais de vinte anos. Assim que recomeça a gritar alguém lhe diz:

 

- Estou aqui, está sossegada.

 

Sorri tranquilizada, e de um modo só seu, regressa aos braços de Artur.  

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Os homens não se querem bonitos.

por Fernando Lopes, 13 Set 16

Se perguntados, a maioria dos homens dirão que não se importam de não ser bonitos. Não é que não nos importemos, habituamo-nos a conviver com a escassa beleza que nos calhou em sorte, mas no fundo, no fundo, todos gostaríamos de ser um Brad Pitt. Uma carinha laroca é meio caminho andado para o sucesso no amor, até mesmo profissional. Somos levados a cultivar outras características que se tornem interessantes para as mulheres: humor, inteligência, cultura, cavalheirismo. Charme, carisma, são coisas que se podem tentar aprender, mas que essencialmente, ou temos ou não. Hoje de manhã olhei para o espelho e disse para comigo: estás melhor que a grande maioria dos da tua idade. Não sei porquê, senti-me reconfortado. Esta necessidade de ser fisicamente apelativo esmorece com o tempo, mas não desaparece nunca, queremos sempre estar no nosso melhor, pelo menos no melhor possível. Achei que o sacrifício que tenho feito estes meses com a dieta me rejuvenesceram um pouco. Ou como disse a minha Directora-Geral, uma senhora muita queque: está dez anos mais novo! É bom estarmos mais ao menos bem na nossa pele, recuperar lentamente o amor-próprio.

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